Ao longo destas duas décadas, aprendi a lidar com curtos prazos, baixos orçamentos e até com a falta de preparo técnico. No entanto, existe um desafio para o qual nenhum treinamento te prepara totalmente: o convívio com lideranças que transformam uma empresa em um palco pessoal.
Não falo aqui de diagnósticos clínicos, mas de uma dinâmica exaustiva de trabalho. Refiro-me ao gestor(a) cuja biografia profissional parece depender de uma validação externa ininterrupta para fazer sentido.
Quem é o herói da narrativa
Cada profissional opera com uma estrutura de pensamento própria. O problema surge quando a fundação dessa estrutura, em quem comanda, é a necessidade latente de ser o protagonista absoluto.
Para esse perfil de liderança, as dinâmicas mudam de propósito:
- A reunião deixa de ser sobre o projeto e passa a ser sobre a performance do líder.
- O feedback perde a função de melhoria de processo para se tornar um pedido velado de reverência.
- A competência da equipe deixa de ser um ativo e vira uma ameaça, a menos que venha acompanhada de total submissão emocional.
O custo incalculável é o silêncio da equipe
O impacto mais severo deste tipo de postura é o esvaziamento do propósito coletivo. Aos poucos, a equipe deixa de focar no valor da entrega para se tornar uma plateia cativa, cuja função principal é manter a estabilidade emocional de quem lidera.
Nesse tipo de ambiente, a verdade torna-se secundária frente à narrativa que conforta o ego de quem comanda. A energia que deveria ser gasta resolvendo problemas complexos e otimizando processos é drenada pela instabilidade de um humor que oscila conforme o volume dos aplausos recebidos.
O desapego como estratégia de Marco Aurélio
É comum tentarmos confrontar essas situações com uma lógica pura. Acreditamos que, ao apresentarmos os fatos, a pessoa irá “acordar”. Contudo, não estamos diante de um debate técnico, mas de uma colisão de mundos.
A saída para não ser engolido por essa dinâmica reside no estoicismo, sem modismos. Pois não temos controle sobre o caráter alheio, mas temos controle total sobre a nossa reação a ele. Tentar mudar o funcionamento de um líder narcisista é um gasto inútil de energia vital.
A proteção emocional vem quando você aceita que a necessidade de aprovação desse gestor(a) é um buraco sem fundo que você nunca conseguirá preencher.
O guia para sobreviver
Para manter sua integridade e seu foco no que realmente importa, proponho o que chamo de guia profissional. Veja:
- Cumpra o escopo combinado com precisão técnica e excelência.
- Sua competência é sua maior defesa.
- Seja educado, cordial, mas proteja sua validação emocional.
- Não fique buscando nesse líder o reconhecimento que ele não tem maturidade para dar.
- Não alimente o vício do ego alheio com elogios falsos.
- Cuide da sua integridade, pois isso corrói a sua própria ética e apenas aumenta a dependência dele.
O foco no que é significativo
No fim do dia, o sucesso de uma operação ou na gestão de uma carreira, depende de processos sólidos e visão clara. A vida é curta demais para sermos apenas figurantes do ego de terceiros.
Uma das coisas que mais gostei de aprender nas relações de trabalho, foi ajudar empresas a operarem, venderem mais e melhor, otimizando processos através da tecnologia e da experiência. Isso só é possível em ambientes onde o resultado é mais importante que o aplauso.
Procure buscar o seu significado no trabalho bem feito, no legado que você deixa e na consciência de que sua história profissional pertence a você, não ao palco de quem te chefia.
